terça-feira, novembro 27, 2007

Para onde vamos?

A história da humanidade mostra-nos que o caminho que o homem tem percorrido não é no sentido da resolução dos seus problemas mas antes na substituição destes por outros nem sempre menos inquietantes que os primeiros… A evolução é, quase sempre, um fluxo de ideias idiotas que se transformam em soluções pela falta de perspectiva. Não sou céptico quanto aos avanços tecnológicos e agrada-me a ideia de uma constante transformação dos estilos de vida com base nas novas possibilidades que nos são apresentadas. Mas para onde vamos nós? O etnocentrismo geracional tolda-nos a capacidade crítica e distorce perspectivas. Estaremos a perder as mais básicas premissas da humanidade?

Até Darwin, assumia-se que evolução era sinónimo de melhoria rumo a uma perfeição ideal, Jean-Baptiste Lamarck é exemplo disso. Mas estaremos agora muito longe desse preconceito? Teremos compreendido realmente as implicações de “A Origem das Espécies” de Charles Darwin?

quarta-feira, outubro 24, 2007

Ressurreição

Sangue contaminado que corres nas minhas veias regenera-te e dá-me vida. Aproveita o teu ciclo para me salvares. Estou à tua espera, preso na cela que há em mim, na esperança que percebas que preciso de ti! Corre e luta, livra-te do peso desse vírus que te corrói e devolve-me a força que há muito perdi.

quinta-feira, outubro 11, 2007

Vírgula

Sol no horizonte, ele está sentado na praia sozinho, olha o mar calmo que se oferece perante a sua inércia. O resort de luxo estende-se atrás dele. Houve-se algum barulho de fundo mas o que ele realmente queria era uma banda sonora para aquele momento. Começa a ouvir a música vinda dentro de si. O fim de tarde é ameno e trás consigo uma suave brisa marítima que acaricia a sua face. O ambiente ajuda-o a construir mentalmente um cenário vibrante de uma noite exótica no bar do hotel onde mulheres bonitas flutuam ao ritmo da música quente que a banda local constrói com paixão. Vê-se a entrar no ritmo ajudado por umas Margaritas. Vê tudo bem nítido, apesar de continuar em frente ao mar calmo que o transportou para aquela ilusão. Dá graças pelo seu momento de solidão. Olha o mar por uma última vez e levanta-se, vira-lhe as costas e prepara-se para emergir de novo no mundo apressado e extenuante que serve de tela para a sua vida. Amanha ele voltará para ver o mar.

terça-feira, setembro 11, 2007

Virar para baixo!

Sinto-me desiludido com os prazeres da vida. Quero experimentar ódio e frustração. Quer ver o lado negro do prazer que tenho sentido. Estou farto das faces cor-de-rosa e dos ângulos correctos. Das perspectivas iluminadas, dos sorrisos desmedidos e das canções festivas. Quero sentir o podre que há em mim. Quero ver sangue! Estou rodeado de coisas belas, tudo à minha volta incorre num movimento contínuo de busca da perfeição, um movimento em espiral ascendente que, impreterivelmente, afasta tudo o que é imperfeito.

Quero uma cicatriz no meu peito. Quero olhar para ela no banho, sentir a sua imperfeição e perceber que é assim que eu sou. Quero perceber que não estou nesse movimento em espiral, e que, se algum dia entrar num movimento espiral, ele será descendente e nunca ascendente. Quero entrar numa loja de uma qualquer cadeia discount e consumir. Quero uma garrafa de água inestética ao meu lado, quero abrir uma embalagem de um qualquer tipo de comida pronta de uma marca impronunciável e afundar-me num sofá gasto. Assistir às televendas durante horas e sentir-me miseravelmente infeliz. Não quero absolutamente nada nas paredes que possa disfarçar o péssimo trabalho de pintura feito pelo colega de um primo qualquer que, por acaso, tinha uns baldes de tinta esquecidos no quintal. Abro aí uma excepção para um calendário ordinário de um qualquer ano da década de oitenta. Quero ligar o rádio manhoso que quero comprar numa loja de penhores e ouvir o último single do Michael Jackson.

Não quero voltar a sonhar! Porque é aí que mais me aproximo da perfeição.

sábado, setembro 08, 2007

Ficar em casa!

Noutro dia um amigo falou-me de um passeio. Contou-me por onde tinha andado e as coisas que tinha visto. Quando lhe bati à porta pensava ter muito que lhe contar. Tinha regressado há poucos dias de New York. Tinha o meu passeio para lhe contar. Mas ele surpreendeu-me. Tinha viajado muito mais do que eu. No início fiquei surpreendido, depois comecei a ficar curioso. Realmente, a história dele era muito mais interessante, muito mais cheia de fotografias e de cruzamentos falhados. Há certos passeios para os quais não encontramos o mapa na estação de serviço. E mesmo as estações de serviço são poucas e caras.

Quando estamos perdidos sabe bem parar. Desligar o carro e lutar com o mapa. Se não houver um sitio para parar, nem um mapa para nos irritar, aí sim: estamos mesmo perdidos. Sem poder parar, sem um mapa que nos desvie a atenção por uns segundos, o próximo cruzamento é sempre ameaçador. Pior ainda quando o nosso carro não tem marcha-atrás.

Nesse dia o meu amigo contou-me a história do seu passeio de Verão. Falou-me dos cruzamentos inevitáveis e dos problemas de transmissão do seu carro. Falou-me das dúvidas, da vontade de tomar, no próximo cruzamento, a estrada mais atrevida, sair da auto-estrada e seguir por uma linha mais sinuosa. Reflectindo agora um pouco, fingi. Fui tendencioso, falei-lhe bem da auto-estrada mas sou um apaixonado por estradas de montanha sem fim, cheias de curvas e com aquele piso medonho a que nos vamos habituando com o passar dos quilómetros. E como ele parece ansioso por fazer umas curvas apertadas. Só tenho medo que ele queira voltar a entrar na auto-estrada a muitos quilómetros da próxima entrada. As estradas de montanha são deliciosas, são inebriantes mas não servem para longas viagens. Por isso, quando ele tomar o próximo cruzamento eu só espero que a próxima entrada da auto-estrada não esteja demasiado longe. Ou então que aquela estrada exuberante se envergonhe, se transforme numa boa estrada, uma via rápida talvez, ou, quem sabe, numa auto-estrada ainda mais larga que a anterior.

Sim, porque ele já se decidiu…

terça-feira, agosto 21, 2007

Expressão do momento:

"A melancolia já não é o que era!"

sábado, junho 16, 2007

Little Ant

Hoje acordei com muito que fazer, coisas para acabar outras para começar. Vou deitar-me cedo. Não comecei nada e está tudo por acabar. Cedo aos vícios no momento de me deitar. Um copo de vinho, um cigarro, um momento para pensar… Sonho com o que vou fazer amanha, imagino um mar de coisas a começar e a acabar. Amanha vou acordar com mais ainda que fazer. É um ciclo interminável! Hei-de começar os dias sempre com algo mais para fazer que no dia anterior. Mas… Há uns dias deitei-me com a noção de ter feito alguma coisa, o ritual foi diferente: não houve vícios, não houve dificuldades em adormecer. Foi um dia em que não houve tempo para pensar. Mas hoje há! E sinto que nesse dia fui uma formiga obreira a trabalhar num grande sistema que ultrapassa a minha noção de existência. Uma pequena peça num mecanismo indecifrável e contínuo e se esconde por trás da sua imensidão. Nesse dia adormeci satisfeito. Será essa a verdadeira natureza humana? Hoje não me sinto satisfeito. Não sinto particular orgulho na grande máquina que ajudamos a mover. Não vejo o ponto neste movimento perpétuo.

Gosto de parar. Gosto dos bancos de jardim virados para ruas vibrantes. Antes não percebia os reformados que passam a tarde à janela desfrutando do trânsito, hoje percebo. É incrível a parecença que temos com as formigas. Quando era miúdo bloqueava ao ver um carreiro de formigas e questionava-me sobre as motivações daqueles pequenos seres. Hoje começo a perceber o que as determina. Sentado naquele banco de jardim sinto-me como o miúdo que se sentava encostado ao tronco de uma árvore de olhar fixo naquele carreiro de formigas. Temos neons e arranha-céus mas somos tal e qual aquelas pequenas formigas a caminho da eternidade…

sexta-feira, junho 01, 2007

Morte Lenta

O que me agrada mais num cigarro é a ideia de me matar pouco a pouco. A ideia de colocar expressões como “Fumar mata” nos maços de cigarros foi uma brilhante estratégia de marketing! Nada nos mata tão lenta e cruelmente como um cigarro, nada consegue, tão simplesmente, abalar todos os sufixos existenciais que teimamos agrafar à nossa vida em sociedade.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Para lá da porta...

É tarde. A televisão quebra o silêncio que se percebe lá fora. Sinto falta de algo. De algo doce, de uma música calma, de um motivo para me deitar. À falta de tudo isso, pego nas chaves do carro e vou dar uma volta. São quatro e pouco. Não vou encontrar nada daquilo que procuro no frio para lá da porta.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Arte

Quando é que algo se torna arte? Quando é único? Quando tem como origem uma intenção especifica, única e irrepetível? Quando é belo?

Sinto a beleza de maneira diferente. Vejo em cada coisa que se atravessa perante mim uma intenção específica, um objectivo diferenciado. A cada segundo que passa sinto coisas únicas e jamais irrepetíveis. Estarei rodeado de arte? Será a vida assim tão erudita? Será arte a imortalização de um sentimento num acto que o exorciza?

Arte é ensaiar, explorar todos os sentidos e deixa-los flutuar num leito de irracionalidade. Arte é a assimetria de olhar a vida de todos os ângulos possíveis.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Viver sem legendas!

Passear por aí não é propriamente a minha definição de viver. Mas olhando em frente custa continuar. Querer coisas fora do nosso alcance tem um terrível efeito nas nossas conquistas imediatas. Perder o focus de um percurso de objectivos menores. Quando sonho, sonho longe da minha realidade, sonho para lá dos meus limites e isso custa-me a desvalorização dos prazeres do dia a dia, as pequenas vitórias são insignificantes à escala. Numa qualquer terapia me diriam para dividir os grandes objectivos em etapas atingíveis no curto prazo, mas para quê caminhar na direcção de algo que se afasta de nós a uma velocidade superior àquela a que nós conseguimos correr?

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Ó morte cruel...

Passa rápido o mundo lá fora. Embacia-se a janela, ofusca-se o mundo. Passa menos rápido agora… Queres ver o mundo por um vidro embaciado e mal limpo? Queres esperar por mais uma translação terrestre, mais uma fase da lua, mais uma estação? Mais uma década? Parece calmo o mundo lá fora quando temos a janela embaciada. Mas deixa-me que te diga: O mundo não para, nem sequer abranda. Quando muito para de acelerar. Mas mesmo assim duvido! Tens os dias contados, tens pouco tempo para fazer a diferença… Despacha-te, inventa qualquer coisa, parte esse vidro opressor. Cerra o punho com toda a tua força, até não puderes mais. Faz-te sentir vivo! Faz! Queres parar? Queres abrandar? Estás cansado? Falta-te o fôlego? Morre sem fôlego, morre extasiado. Morre vivo!!! Não queiras uma morte lenta.

Quando for velho, quando estiver moribundo vou olhar para trás e, no último silvar do consciente, vou ser miseravelmente infeliz. Vou ter querido tanta coisa, vou precisar de tanto mais tempo para ser feliz. Vou olhar-me de cima, elevado sobre o meu corpo, e pensar nas tantas coisas que ficaram por fazer e por dizer. Sou um não crente, mas naquela altura vou rogar a deus, vou implorar:

“Leva-me até à ignorância de não saber que, afinal, e apesar de ter vivido convencido do contrário, fui infeliz. Quero morrer 5 dias antes, transporta-me no tempo, ó deus que não me entendes, leva-me até à 5 dias atrás e faz-me morrer num qualquer acidente de viação, choque frontal, morte imediata, coisa simples. Transforma-me num morto feliz, num morto sem tempo para o último julgamento. Não, não quero voltar à vida, seria como que voltar ao prato vazio depois de uma refeição. Por muito esfomeado que me voltasse a sentir, não conseguiria ver nada para além de um prato vazio à minha frente."