Noutro dia um amigo falou-me de um passeio. Contou-me por onde tinha andado e as coisas que tinha visto. Quando lhe bati à porta pensava ter muito que lhe contar. Tinha regressado há poucos dias de New York. Tinha o meu passeio para lhe contar. Mas ele surpreendeu-me. Tinha viajado muito mais do que eu. No início fiquei surpreendido, depois comecei a ficar curioso. Realmente, a história dele era muito mais interessante, muito mais cheia de fotografias e de cruzamentos falhados. Há certos passeios para os quais não encontramos o mapa na estação de serviço. E mesmo as estações de serviço são poucas e caras.
Quando estamos perdidos sabe bem parar. Desligar o carro e lutar com o mapa. Se não houver um sitio para parar, nem um mapa para nos irritar, aí sim: estamos mesmo perdidos. Sem poder parar, sem um mapa que nos desvie a atenção por uns segundos, o próximo cruzamento é sempre ameaçador. Pior ainda quando o nosso carro não tem marcha-atrás.
Nesse dia o meu amigo contou-me a história do seu passeio de Verão. Falou-me dos cruzamentos inevitáveis e dos problemas de transmissão do seu carro. Falou-me das dúvidas, da vontade de tomar, no próximo cruzamento, a estrada mais atrevida, sair da auto-estrada e seguir por uma linha mais sinuosa. Reflectindo agora um pouco, fingi. Fui tendencioso, falei-lhe bem da auto-estrada mas sou um apaixonado por estradas de montanha sem fim, cheias de curvas e com aquele piso medonho a que nos vamos habituando com o passar dos quilómetros. E como ele parece ansioso por fazer umas curvas apertadas. Só tenho medo que ele queira voltar a entrar na auto-estrada a muitos quilómetros da próxima entrada. As estradas de montanha são deliciosas, são inebriantes mas não servem para longas viagens. Por isso, quando ele tomar o próximo cruzamento eu só espero que a próxima entrada da auto-estrada não esteja demasiado longe. Ou então que aquela estrada exuberante se envergonhe, se transforme numa boa estrada, uma via rápida talvez, ou, quem sabe, numa auto-estrada ainda mais larga que a anterior.
Sim, porque ele já se decidiu…