Passou por mim confiante, olhos vivos, cabelo solto, despertou em mim todo o interesse. Era doce e meiga, meiga e doce. Era perfeita… Tinha aquele ar curioso de quem nunca está satisfeito. Ela era curiosa mas nunca impertinente. Enquanto passou por mim senti-me alheio a tudo o resto, senti um aperto no peito, um suor frio, senti-me perdido. Ela era a tal. Passava em câmara lenta, por segundos fiquei com a sensação que ela estava ali, não ia a nenhum lado, ela era o Sol, eu é que estava a passar ao lado. Por momentos deixei de ser Sol, agora tudo o resto, eu incluído, girava em torno de um novo corpo celeste. O egocentrismo desvaneceu-se… Perdido é mesmo o termo certo: não sei se era uma ânsia de prazer que me consumia, e aquele corpo despertava-me prazer, se uma vontade maior de ser feliz. Mas eu não estava excitado, não era o efeito de uma foto atrevida ou de um bikini mais ousado numa praia qualquer, era mesmo um aperto no peito, sem qualquer espécie de romantismo, um aperto do peito daqueles que nos parece precipitar para uma grande decisão. Mas não houve espaço para nenhuma decisão. Ela passou por mim, ou eu passei por ela, sem que nada, para além de uma troca de olhares, se tivesse passado. Naquele momento apetecia-me desistir de toda a minha vida, construída sob um escrutínio rigoroso do racional, e seguir por um atalho. Aquele ar de menina perfeita na sua imperfeição deixou-me desnorteado, a beleza do contraditório foi fulminante, tímida e evasiva, capaz e ansiosa por apoio, serena e desconcertante. Estaria aqui horas a arranjar adjectivos, sem que nenhum me parecesse suficientemente expressivo para traduzir o impacto que aquele olhar teve em mim. Aquele encontro deixou marcas, se não estivesse inundado de porcarias socializantes que nos toldam a liberdade de movimentos teria feito algo sobre o assunto, assim limitei-me a escrever sobre ele. Ai aquele olhar… Nem sequer sei a cor dos olhos dela, não interessa. Tenho ideia de serem escuros, mas a leveza com que ela erguia o seu olhar perante mim fez esquecer cores e formas, fez esquecer a beleza que, na realidade, ela tinha. Enquanto me cruzava naquele olhar só conseguia ver intenção, só conseguia ler desejos.
terça-feira, novembro 28, 2006
quarta-feira, novembro 22, 2006
Comprar Consciências
Assola-me uma grande dúvida… Serei capaz de defender um programa em que não acredito? Por motivos profissionais sinto-me tentado a defender um programa que seria extremamente benéfico para mim, no sentido em que eu sairia beneficiado financeiramente, mas, pasmem-se, não concordo com ele. Há aqui duas vertentes problemáticas: a primeira que se prende com possíveis razões morais que me levariam a não defender algo em que não acredito e outra que diz respeito à minha capacidade de convencer alguém a acreditar em algo que eu não acredito. Gostaria de vos expor melhor o problema, mas o youtube já deu origem a um processo judicial por análise do seu conteúdo, não quero que o blogger vá pelo mesmo caminho.
Agora falando sério, será imoral defender publicamente algo em que não depositamos esperanças pelo simples facto de isso nos trazer vantagens pessoais? Egoísmo? Será só isso?
quinta-feira, novembro 16, 2006
Falta de Tempo
Ou é a falta de tempo ou a pouca paciência para aturar certas coisas... E daí... Se calhar não! É mesmo falta de tempo. Mas não quero dizer com isto que não tenho tempo para aqui escrever umas linhas. A falta de tempo faz-se sentir de uma forma mais perigosa. As futilidades da rotina do dia-a-dia, os pequenos grandes problemas do existir, as contas, a fome, a sede, o diz que disse, o Livro do Santana (ok, já estou a exagerar), mas estas preocupações que nos vão ocupando o tempo vão ocupando, também, a mente. Estar envolto em pequenas coisas afasta-nos das grandes. Com isto não quero chegar a mais lado nenhum que não seja o facto de este espaço ser uma coisa grande. Com toda a humildade o digo. E posso explicar: Este site tem uma grande importância na minha sanidade mental (daí o meu estado nos últimos dias). É completamente inconsequente, tem a mesma visibilidade de um rascunho na capa de um caderno escolar (já foi o seu tempo), mas é uma expressão sentida de quem só tem uma pretensão: lembrar, daqui a uns tempos, como foi sentir o passado no presente e, quem sabe, fazer algumas comparações.
quarta-feira, novembro 01, 2006
Senhoras de bem!
Os falsos moralistas que povoam a nossa sociedade metem-me nojo. Quando senhoras com o seu snobismo ridículo vem para a televisão mostrar a sua indignação perante a possibilidade de deixarmos de perseguir criminalmente as mulheres que se viram em situações limite que acabaram com um aborto só podem estar a defender uma sociedade que já não é aquela com que os portugueses se identificam. Eu, pelo menos, não me identifico com uma sociedade que enxovalha as mulheres que são vítimas de circunstâncias da vida, e que voltam a ser vítimas por fazerem parte daquele grupo de pessoas para quem umas centenas de euros na viagem e tratamento em Espanha não estão dentro das suas possibilidades.
Essas senhoras, porque são maioritariamente senhoras, que se diz chocada com a hipótese de despenalização do aborto só podem ser do género de pessoa que se diz moralmente superior, absolutamente contrária à possibilidade abortiva da mulher, mas quando a filha bonita e eternamente virgem chega a casa grávida vai a correr para Badajoz praticar aquilo que, segundo elas, seria um crime atroz, e preservar a todo custo o bom nome de família e todos os valores morais que servem de suporte à sua burguesia patética e ao seu terço na cabeceira da cama. Concebem hipocrisia maior?
Essas senhoras, porque são maioritariamente senhoras, que se diz chocada com a hipótese de despenalização do aborto só podem ser do género de pessoa que se diz moralmente superior, absolutamente contrária à possibilidade abortiva da mulher, mas quando a filha bonita e eternamente virgem chega a casa grávida vai a correr para Badajoz praticar aquilo que, segundo elas, seria um crime atroz, e preservar a todo custo o bom nome de família e todos os valores morais que servem de suporte à sua burguesia patética e ao seu terço na cabeceira da cama. Concebem hipocrisia maior?
Só me ocorre uma: Aquela que tem marcado a história da Igreja Católica.
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