Hoje acordei com muito que fazer, coisas para acabar outras para começar. Vou deitar-me cedo. Não comecei nada e está tudo por acabar. Cedo aos vícios no momento de me deitar. Um copo de vinho, um cigarro, um momento para pensar… Sonho com o que vou fazer amanha, imagino um mar de coisas a começar e a acabar. Amanha vou acordar com mais ainda que fazer. É um ciclo interminável! Hei-de começar os dias sempre com algo mais para fazer que no dia anterior. Mas… Há uns dias deitei-me com a noção de ter feito alguma coisa, o ritual foi diferente: não houve vícios, não houve dificuldades em adormecer. Foi um dia em que não houve tempo para pensar. Mas hoje há! E sinto que nesse dia fui uma formiga obreira a trabalhar num grande sistema que ultrapassa a minha noção de existência. Uma pequena peça num mecanismo indecifrável e contínuo e se esconde por trás da sua imensidão. Nesse dia adormeci satisfeito. Será essa a verdadeira natureza humana? Hoje não me sinto satisfeito. Não sinto particular orgulho na grande máquina que ajudamos a mover. Não vejo o ponto neste movimento perpétuo.
Gosto de parar. Gosto dos bancos de jardim virados para ruas vibrantes. Antes não percebia os reformados que passam a tarde à janela desfrutando do trânsito, hoje percebo. É incrível a parecença que temos com as formigas. Quando era miúdo bloqueava ao ver um carreiro de formigas e questionava-me sobre as motivações daqueles pequenos seres. Hoje começo a perceber o que as determina. Sentado naquele banco de jardim sinto-me como o miúdo que se sentava encostado ao tronco de uma árvore de olhar fixo naquele carreiro de formigas. Temos neons e arranha-céus mas somos tal e qual aquelas pequenas formigas a caminho da eternidade…
