Passa rápido o mundo lá fora. Embacia-se a janela, ofusca-se o mundo. Passa menos rápido agora… Queres ver o mundo por um vidro embaciado e mal limpo? Queres esperar por mais uma translação terrestre, mais uma fase da lua, mais uma estação? Mais uma década? Parece calmo o mundo lá fora quando temos a janela embaciada. Mas deixa-me que te diga: O mundo não para, nem sequer abranda. Quando muito para de acelerar. Mas mesmo assim duvido! Tens os dias contados, tens pouco tempo para fazer a diferença… Despacha-te, inventa qualquer coisa, parte esse vidro opressor. Cerra o punho com toda a tua força, até não puderes mais. Faz-te sentir vivo! Faz! Queres parar? Queres abrandar? Estás cansado? Falta-te o fôlego? Morre sem fôlego, morre extasiado. Morre vivo!!! Não queiras uma morte lenta.
Quando for velho, quando estiver moribundo vou olhar para trás e, no último silvar do consciente, vou ser miseravelmente infeliz. Vou ter querido tanta coisa, vou precisar de tanto mais tempo para ser feliz. Vou olhar-me de cima, elevado sobre o meu corpo, e pensar nas tantas coisas que ficaram por fazer e por dizer. Sou um não crente, mas naquela altura vou rogar a deus, vou implorar:
“Leva-me até à ignorância de não saber que, afinal, e apesar de ter vivido convencido do contrário, fui infeliz. Quero morrer 5 dias antes, transporta-me no tempo, ó deus que não me entendes, leva-me até à 5 dias atrás e faz-me morrer num qualquer acidente de viação, choque frontal, morte imediata, coisa simples. Transforma-me num morto feliz, num morto sem tempo para o último julgamento. Não, não quero voltar à vida, seria como que voltar ao prato vazio depois de uma refeição. Por muito esfomeado que me voltasse a sentir, não conseguiria ver nada para além de um prato vazio à minha frente."