terça-feira, setembro 11, 2007

Virar para baixo!

Sinto-me desiludido com os prazeres da vida. Quero experimentar ódio e frustração. Quer ver o lado negro do prazer que tenho sentido. Estou farto das faces cor-de-rosa e dos ângulos correctos. Das perspectivas iluminadas, dos sorrisos desmedidos e das canções festivas. Quero sentir o podre que há em mim. Quero ver sangue! Estou rodeado de coisas belas, tudo à minha volta incorre num movimento contínuo de busca da perfeição, um movimento em espiral ascendente que, impreterivelmente, afasta tudo o que é imperfeito.

Quero uma cicatriz no meu peito. Quero olhar para ela no banho, sentir a sua imperfeição e perceber que é assim que eu sou. Quero perceber que não estou nesse movimento em espiral, e que, se algum dia entrar num movimento espiral, ele será descendente e nunca ascendente. Quero entrar numa loja de uma qualquer cadeia discount e consumir. Quero uma garrafa de água inestética ao meu lado, quero abrir uma embalagem de um qualquer tipo de comida pronta de uma marca impronunciável e afundar-me num sofá gasto. Assistir às televendas durante horas e sentir-me miseravelmente infeliz. Não quero absolutamente nada nas paredes que possa disfarçar o péssimo trabalho de pintura feito pelo colega de um primo qualquer que, por acaso, tinha uns baldes de tinta esquecidos no quintal. Abro aí uma excepção para um calendário ordinário de um qualquer ano da década de oitenta. Quero ligar o rádio manhoso que quero comprar numa loja de penhores e ouvir o último single do Michael Jackson.

Não quero voltar a sonhar! Porque é aí que mais me aproximo da perfeição.

sábado, setembro 08, 2007

Ficar em casa!

Noutro dia um amigo falou-me de um passeio. Contou-me por onde tinha andado e as coisas que tinha visto. Quando lhe bati à porta pensava ter muito que lhe contar. Tinha regressado há poucos dias de New York. Tinha o meu passeio para lhe contar. Mas ele surpreendeu-me. Tinha viajado muito mais do que eu. No início fiquei surpreendido, depois comecei a ficar curioso. Realmente, a história dele era muito mais interessante, muito mais cheia de fotografias e de cruzamentos falhados. Há certos passeios para os quais não encontramos o mapa na estação de serviço. E mesmo as estações de serviço são poucas e caras.

Quando estamos perdidos sabe bem parar. Desligar o carro e lutar com o mapa. Se não houver um sitio para parar, nem um mapa para nos irritar, aí sim: estamos mesmo perdidos. Sem poder parar, sem um mapa que nos desvie a atenção por uns segundos, o próximo cruzamento é sempre ameaçador. Pior ainda quando o nosso carro não tem marcha-atrás.

Nesse dia o meu amigo contou-me a história do seu passeio de Verão. Falou-me dos cruzamentos inevitáveis e dos problemas de transmissão do seu carro. Falou-me das dúvidas, da vontade de tomar, no próximo cruzamento, a estrada mais atrevida, sair da auto-estrada e seguir por uma linha mais sinuosa. Reflectindo agora um pouco, fingi. Fui tendencioso, falei-lhe bem da auto-estrada mas sou um apaixonado por estradas de montanha sem fim, cheias de curvas e com aquele piso medonho a que nos vamos habituando com o passar dos quilómetros. E como ele parece ansioso por fazer umas curvas apertadas. Só tenho medo que ele queira voltar a entrar na auto-estrada a muitos quilómetros da próxima entrada. As estradas de montanha são deliciosas, são inebriantes mas não servem para longas viagens. Por isso, quando ele tomar o próximo cruzamento eu só espero que a próxima entrada da auto-estrada não esteja demasiado longe. Ou então que aquela estrada exuberante se envergonhe, se transforme numa boa estrada, uma via rápida talvez, ou, quem sabe, numa auto-estrada ainda mais larga que a anterior.

Sim, porque ele já se decidiu…