Sinto-me desiludido com os prazeres da vida. Quero experimentar ódio e frustração. Quer ver o lado negro do prazer que tenho sentido. Estou farto das faces cor-de-rosa e dos ângulos correctos. Das perspectivas iluminadas, dos sorrisos desmedidos e das canções festivas. Quero sentir o podre que há em mim. Quero ver sangue! Estou rodeado de coisas belas, tudo à minha volta incorre num movimento contínuo de busca da perfeição, um movimento em espiral ascendente que, impreterivelmente, afasta tudo o que é imperfeito.
Quero uma cicatriz no meu peito. Quero olhar para ela no banho, sentir a sua imperfeição e perceber que é assim que eu sou. Quero perceber que não estou nesse movimento em espiral, e que, se algum dia entrar num movimento espiral, ele será descendente e nunca ascendente. Quero entrar numa loja de uma qualquer cadeia discount e consumir. Quero uma garrafa de água inestética ao meu lado, quero abrir uma embalagem de um qualquer tipo de comida pronta de uma marca impronunciável e afundar-me num sofá gasto. Assistir às televendas durante horas e sentir-me miseravelmente infeliz. Não quero absolutamente nada nas paredes que possa disfarçar o péssimo trabalho de pintura feito pelo colega de um primo qualquer que, por acaso, tinha uns baldes de tinta esquecidos no quintal. Abro aí uma excepção para um calendário ordinário de um qualquer ano da década de oitenta. Quero ligar o rádio manhoso que quero comprar numa loja de penhores e ouvir o último single do Michael Jackson.
Não quero voltar a sonhar! Porque é aí que mais me aproximo da perfeição.
